16/11/2018
Iogurte saborizado pode ter mais açúcar do que refrigerante: como escolher?...
Fonte:  UOL VivaBem



Crédito: iStock

A maioria das pessoas já sabe que refrigerante em excesso não faz bem: a alta quantidade de açúcar pode prejudicar a saúde no longo prazo, e nem mesmo as versões diet, light ou zero escapam do rótulo de vilões pela quantidade de sódio ou adoçantes inclusos.

Mas enquanto temos praticamente "de cor e salteado" a listinha dos alimentos supostamente prejudiciais à saúde, ainda há muita confusão sobre os alimentos "bonzinhos".

Por isso eu condeno essa dicotomia e sempre reforço que não existem alimentos que fazem bem ou que fazem mal. O que vai contar, para sua saúde e para o seu peso, é a sua alimentação como um todo.

Hoje queria falar um pouco dos iogurtes porque vimos polêmica recentemente sobre esses alimentos. A ideia aqui não é incentivar você a parar de comer iogurte e passar a tomar refrigerante no lugar. Mas sim mostrar, por meio de dados, que ambos precisam ser enxergados com cautela quando há exagero.

Um estudo recentemente publicado no British Medical Journal (BMJ) trouxe números bastante impactantes nesse sentido. Pesquisadores da School of Food Science and Nutrition, da University of Leeds, avaliaram mais de 900 tipos de iogurtes à venda nos supermercados do Reino Unido. Você pode pensar que esse lugar é bem longe de nós no Brasil, mas a oferta de produtos industrializados aqui não difere tanto, com uma tendência para ser pior.

O levantamento aponta que a maioria das marcas traz mais de 10 g de açúcar a cada 100 g de produto, sendo que os rotulados como orgânicos (incluindo iogurte orgânico com adição de frutas ou aromatizantes) tiveram o maior teor mediano de açúcar (13,1g a cada 100g).

Os que se destacaram positivamente foram apenas os iogurtes naturais ou os gregos (5 g de açúcar a cada 100 g em média). Podemos ver então que, apesar do nome, mesmo esses iogurtes contêm açúcar! Os verdadeiros iogurtes naturais ou gregos deveriam conter apenas dois ingredientes: leite e fermentos lácteos. Aproveito para avisar o leitor brasileiro que vale a pena conferir a rotulagem dos produtos que usam essas denominações. Várias marcas vendem iogurtes realmente naturais, mas até agora não encontrei um iogurte grego que merece essa apelação.

Outro dado interessante: 55% dos produtos com baixo teor de gordura continham de 10 a 20 g de açúcar por 100 g.

Quando se fala em iogurtes destinados ao público infantil, o quadro fica um pouco pior. Entre os produtos destinados às crianças, apenas 2% apresentaram níveis aceitáveis de açúcar.

E o que esse monte de número significa?

Só para se ter uma ideia de quantidade, deixo aqui a recomendação da American Heart Association que, diante do crescimento da obesidade e das doenças crônicas ligadas a ela, divulgou em 2016 uma nova diretriz sobre o consumo diário de açúcar.

Para crianças, o recomendável é de 25 g diárias, ou 5 colheres de chá. Isso significa que, se o seu filho consome um iogurte saborizado todos os dias no lanche da escola, por exemplo, já terá consumido nessa refeição metade da recomendação diária de açúcar.

O problema é que o açúcar não vai parar por aí: também pode estar nos outros doces, sucos, refrigerantes, bolachas recheadas… e até nos salgados, como molhos prontos para salada, salgadinhos e por aí vai. São os famosos açúcares escondidos.

Por isso abri este texto comparando iogurte com refrigerante. Você não precisa escolher entre um e outro, e nem dá para comparar –um é comida, outro é bebida. Mas seria interessante ter consciência destes números para poder fazer escolhas mais adequadas.

Infelizmente ainda falta qualidade para muitos produtos aqui no Brasil. Se você pegar a mesma marca de iogurte em um mercado daqui, e em um mercado da França, vai notar a diferença no rótulo.

Um dia brinquei de comparar dois iogurtes lá e aqui. Vejam os ingrediente do mesmo iogurte sabor morango (mesma marca, mesmo nome, mesmo pote): na França – leite, fruta (8 a 10%) e cerca de 10% de açúcar, com adição de suco de cenoura (provavelmente para dar cor); aqui no Brasil – leite em primeiro lugar, seguido por açúcar e um "preparado" de morango que, além de morango, tem mais açucares ainda (os rótulos no Brasil são organizados por ordem crescente, os que estão no topo da lista são os que estão mais presentes em quantidade).

Existem muitos nomes para açúcares: frutose, glicose, amido modificado, etc. Embora o rótulo pareça algo saudável, o que geralmente vem é um "preparado de fruta", ou seja um tipo de xarope de fruta. Mas cadê a fruta? O Brasil é o país da fruta! É lamentável ver tão pouca fruta e tantos açúcares escondidos em produtos como iogurtes.

Existe luz no fim do túnel? Sim, existem várias medidas em andamento que visam a redução da quantidade de açúcar nos alimentos e uma reavaliação da rotulagem. Mas enquanto isso não acontece, você pode fazer sua parte mudando seus hábitos alimentares.

Coloque açúcar!

Não quero demonizar os produtos industrializados –eu sei que eles salvam a pele no meio da correria do dia-a-dia, são práticos e as crianças adoram. Mas a minha recomendação de sempre para quem quer ter mais saúde dentro de casa é: volte-se para os alimentos naturais, e reduza o consumo dos ultraprocessados.

Se você ainda não está acostumado ao sabor natural das coisas, não tem problema: adoce! Pode usar açúcar, é muito melhor consumir um iogurte natural de verdade adoçado por você mesmo, do que comprar um já adoçado. Assim você tem mais controle e aposto que vai colocar uma quantidade menor do que a que vem nesses produtos saborizados.

Além disso, fazer iogurte natural é a coisa mais simples do mundo e eu já até dei essa dica por aqui. E vale lembrar que não existe só açúcar para adoçar: você pode colocar frutas picadinhas, mel, açúcar mascavo, geleia caseira, baunilha, etc.

Se a sua ideia é reeducar seu paladar e implementar uma alimentação com mais qualidade para sua família, comece diminuindo o açúcar aos poucos: não somente aquele que você mesmo coloca, mas também diminuindo o consumo dos ultraprocessados que contêm muitos açúcares escondidos. E se você tem filhos, comece a incentivar hábitos saudáveis desde cedo.

Estamos diante de uma crescente epidemia de sobrepeso infantil, e isso é comprovado por inúmeras pesquisas. Uma delas, feita pelo Imperial College London e a Organização Mundial da Saúde (OMS), mostrou que o número de crianças e adolescentes obesos na faixa etária entre cinco e 19 anos, aumentou dez vezes em todo o mundo nas últimas 4 décadas.

Não existe um vilão só responsável por isso. Essa epidemia é multifatorial, mas sabemos que parte da culpa é do consumo excessivo de açúcar e outros açúcares. Muitos estudos estão ligando esses excessos ao maior risco de obesidade, hipertensão, diabetes do tipo dois, cáries, colesterol alto, falta de disposição, complicações respiratórias, entre outros. Vale a pena rever nossos hábitos, não vale?

Cabe a nós tentar reverter este quadro, comendo melhor em casa e exigindo mais qualidade nos supermercados com menos produtos carregados de açúcares e mais qualidade nos ingredientes. Lancei um movimento que se chama #QueroMaisQualidade para justamente alertar sobre essa tendência e educar o consumidor para que escolha melhor. Fazendo isso a oferta acabará melhorando com o tempo, sem dúvida.

Bon appétit!

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